Entre Duas Saias Justas

Saia justa, uma expressão que denomina um momento de perplexidade. O chão some, uma sensação de estarmos em uma camisa de força comprime o corpo, a alma e o nosso poder de raciocínio. Certa vez, há muito tempo, numa noite de verão muito quente, eu estava com uma namorada em uma festa na casa de uma amiga. Sala cheia, Bossa Nova rolando, muita cerveja e ânimos descontraídos davam a tônica do ambiente. Tudo ia bem até soar a campainha da porta.

 Meu sexto sentido masculino, não tão desenvolvido como o das mulheres, deu o seu alerta implacável. Quando, finalmente, a dona da casa abriu a porta uma surpresa inesperada, se é que uma surpresa pode ser esperada, aconteceu. Uma ex-namorada minha, sem ser convidada apareceu. Era de domínio público o que havia acontecido entre essa pessoa e eu. Minha atual namorada já ouvira comentários a respeito deste relacionamento intenso e arrebatador, para não dizer confuso. Isto tudo a deixava com humor beirando o descontrole total. Senti que a noite seria muito longa ou muito curta. A única coisa que não parou foi o som do toca discos (naquela época aparelho de cd era, ainda, produto de ficção científica). Os copos pararam de brindar ou bater, distraidamente, no vidro da mesinha de centro. As bocas estancaram na última mastigada de amendoim salgado. Línguas extremamente soltas petrificaram. Após este intervalo estagnado no ar, onde olhos se procuraram em busca de explicações ou respostas, a dona da casa cumprimentou a não-convidada e a introduziu na festa. Este ato descongelou o momento e a balbúrdia continuou o seu curso natural. Para mim, nada mais seria natural naquela noite. Durante todo este tempo só meu corpo estivera ali naquela sala. Minha alma, o meu “eu” mais íntimo e minha coragem de “pseudo-macho-latino-americano”, já estavam fugindo pela janela quando minha namorada apertou meu braço. Um sinal dúbio de apoio ou advertência, não sei e nem tive coragem de perguntar. Conversa vai, cerveja vem e a festa continuava. Eu não sabia onde colocar minhas mãos, meus olhos e meus pensamentos. Minha namorada pescou na hora quem era aquela mulher que, por instantes dominara o ambiente. Dois olhos grandes e verdes atraiam os meus olhos pequenos e turvos pelo álcool. Dois travesseiros de falar, segundo Hebert Viana, chamavam minha atenção a cada momento. Minha namorada dava sinais de impaciência e meu sexto-sentido, que agora se resumia a um ou dois, apitou pela segunda vez. Como todo homem meio alegre pela bebida, nem quis tomar conhecimento e deixei as coisas tomarem seu rumo normal. Erroneamente normal. O teor etílico atingiu níveis incompatíveis com o da minha bexiga, fui em direção ao banheiro. No corredor, para meu azar, faltou luz. Andar no escuro em uma casa estranha é uma tarefa difícil, imaginem alguém no meu estado físico e emocional. Tateando pelas paredes, pelos quadros, pelos vasos, cheguei à porta completamente desnorteado. Entrei e lembrei do isqueiro. Acendi-o, mirei o vaso sanitário como uma criança que ainda está aprendendo a fazer suas necessidades e urinei não sei por quanto tempo. Com uma sensação de alívio apaguei o escaldante isqueiro, que já quase queimava os meus dedos, e sai. Já de volta ao corredor e tateando as mesmas paredes, os mesmos quadros e os mesmos vasos, senti um perfume feminino muito familiar. Minha cabeça rodou. Meu sensor de problemas apitou desesperadamente, atingindo níveis de alarme comparados ao de um vazamento nuclear. Minha cabeça tornou a rodar em consequência do álcool, do perfume, do meu passado, da insegurança em relação ao meu futuro e do medo de nunca chegar à sala. Coisa de bêbado. Decidido a pegar minha namorada e ir embora, respirei fundo, firmei o passo e fui em frente. O aroma de perfume se tornou mais forte e mais tentador. Trombei com alguém. Senti uma respiração quente bem na altura do meu queixo e uma mão, com um toque familiar, agarrou meu peito de uma forma decidida. Uma boca, com uma suavidade também conhecida, procurou meus lábios. Perdi a razão. Sucumbi ao desatino. Desci a ladeira da razão. Não sei se eu voava ou se caia em um buraco negro de uma galáxia distante. Eu era um jedai, um herói, um rebelde, um homem leviano e vulgar, um Marlon Brando no filme “O selvagem”. Definitivamente eu não estava ali. Definitivamente eu vagava não sei por onde. Depurava erros, acertos, alegrias, tristezas e desventuras baratas. Um malabarista que espelha o circo só prá si. Só prá se ver. Arriscando cair, arriscando morrer. Estávamos dando um tiro de misericórdia no nosso passado e no meu futuro. Nada seria igual dali por diante, inclusive eu. Não sei precisar o tempo que ficamos assim como dois viciados se despedindo da última picada. A luz voltou e eu abri os olhos. Minha ex-futura-noiva estava bem à nossa frente com os braços cruzados, batendo o pezinho e nos olhando com uma expressão indefinida. Não tive coragem de perguntar. Minha cabeça rodou outra vez. Saia justa, uma expressão que designa desconforto. O cérebro estanca, qualquer segundo é uma eternidade em busca de uma saída, uma explicação, não digo honrosa, mas pelo menos convincente. No meu caso, nem uma… nem outra.

Escrevi este texto para ganhar uma nota na faculdade e divertir os colegas, caso eu o lesse em aula. Li. Na hora de passar a limpo o texto se modificou. Passei a limpo novamente. Outra vez ele toma outra forma. Mais uma tentativa e ele teima em se moldar de outra maneira. Desisti. Digitei no computador exatamente o que estava no meu último e derradeiro rascunho. Antes de imprimir passei os olhos na tela e adivinhe? Algumas coisas foram modificadas. Não era só a forma e o conteúdo que se modificavam. A minha visão sobre o fato hilário da minha juventude também mudou. Depois de reescrever o texto diversas vezes e olhando o fato com olhos de homem maduro (é primeira vez que escrevo este termo, devo estar mais velho do que imagino), não vi nada de engraçado, muito pelo contrário. Vi jovens inexperientes não sabendo o que fazer com seus sentimentos. Acho que fiquei nostálgico demais, pois naquele tempo tudo, absolutamente tudo, parecia normal e a vida era apenas um cenário para a nossa diversão.